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Apr 25, 2023
8
Uma história muito bem contada sobre uma jovem motoqueira que se insere num mundo urbano, meio decadente, dominado por homens jovens, frutos de uma desestruturação orgânica do capitalismo do século XXI, sobrevivendo por meio da informalidade, numa linha muito tênue com o crime. Ela então se destaca por usar da lábia (e também por ser mulher) em vendedores de motos avulsos para roubar-lhes a peça.
Aqui temos um estudo de personagem muito bem diagramado, talvez só faltou o roteiro trabalhar melhor sua origem familiar, que ficou ainda um vazio, em uma cena especial ela volta para casa, fala com o irmão, dorme lá, ficamos sabendo que ela não é bem vinda pela mãe, e some. Apenas isso.
Então o motriz de sobrevivência da personagem gira em torno daquele submundo, captado muito bem pelas câmeras de Lola Quivoron e muito bem atuado por Julie Ledru, sempre de olhar cansado, mas atenta. Ela começa então a receber missões do chefe dos garotos, um presidiário que os coordena de dentro da cela, mediante chamadas de celular. O grupo se encontra num galpão abandonado, onde basicamente revendem peças desmontadas, praticam roubos, mas tem aí uma sociedade mais sólida. É claro que a protagonista encontrará resistências e inimizades durante o trajeto, porém, seus sonhos ficam circunscritos àquele universo, suas pretensões de assaltar um caminhão com motos de alto valor passa a ser seu objetivo maior de vida, a reta pela qual se justifica sua jornada.
Ver uma jovem com perspectivas de vida tão limitadas é muito angustiante, mas graças à delicadeza do roteiro tudo vai passando da forma mais palatável e crua possível, até o final poético e amargo. É um filme de um retrato de parte da sociedade e da juventude, que possui sonhos atrelados à sociedade de consumo mas que não consegue ter oportunidades maiores ou mesmo desinteresse pelo bom convívio social, com déficit educacional e moral. Não tô querendo ser moralista, afinal há ali uma ponta de convivência social no grupo em questão, mas alguém achar que há futuro em viver de contrabandear peças é meio loucura. O bom é que o filme passa a mensagem correta de onde isso pode parar.